Entrevista com Edison A. Pires de Moraes
Edison Antonio Pires de Moraes, usuário de MSX de
longa data,
desde 1985, quando o MSX foi lançado no Brasil. Se tornou,
há algum tempo atrás, escritor, sendo o autor dos
livros
MSX TOP Secret Volumes I e II. Estes livros são de leitura
recomendada para qualquer usuário que queira programar no
MSX,
abrangendo em profundidade as características de todos os
modelos lançados de MSX. Também desenvolve
projetos
pessoais para o MSX, como o EdiOS, o seu mais recente projeto para a
plataforma, que se trata de uma interface gráfica, escrita
em
ASM e C.
Edison, como foi o seu contato com a área de
informática ? O MSX foi seu primeiro computador ?
Sim, foi. Foi um Hotbit 1.1, aquele branco, que tenho até
hoje 100% funcional.
Como em minha cidade ele não havia chegado, comprei em uma
cidade vizinha. O interessante é que, para aproveitar uma
promoção, comprei o micro que ainda
não havia
chegado na loja no último dia da
promoção...
Depois ele ficava mais caro. Alguns dias depois, exatamente em 3 de
novembro de 1985, fui feliz da vida buscá-lo.
E como foi seu primeiro contato com o MSX ?
Excelente! Foi na Feira Internacional de Informática de
1985,
realizada no Pavilhão de Exposições do
Anhembi.
Fui para essa feira decidido a escolher um modelo de micro para
comprar. Fiquei impressionado com o MSX. E haviam 3 micros que eu
considerava comprar: Expert, Hotbit e (acredite se quiser) MC1000.
O que o atraiu para o mundo MSX ?
Foi a capacidade gráfica e sonora do MSX a
princípio.
Depois, ao ler as características técnicas,
decidi de vez.
Entre os modelos disponíveis (1, 2, 2+ e Turbo R) qual o de
sua preferência e porquê ?
Difícil dizer. Tenho um TR e raramente ligo meu Hotbit.
Diria
que prefiro o TR pela velocidade e memória (o meu
está
com 512K). Tem coisa que fica bem mais lenta em um MSX2 ou 2+, como
compilar algum programa.
Em algum momento (pós era comercial) você chegou a
não mais usar o MSX ? Se sim, quando voltou a
utilizá-lo,
o que fez o voltar a usá-lo ?
Nunca deixei de usá-lo totalmente. Até mesmo
demorei para
comprar um PC porque não queira abandonar o MSX. Tive meu
primeiro PC em 1999. Mas foi um equívoco. Metade do tempo
que
passo em frente ao PC é fazendo coisas para MSX.
O que atualmente mais lhe atrai no MSX ?
Sem dúvida, uma comunidade ativa e extremamente
eclética.
Se eu fizer alguma coisa para MSX, sempre vai ter alguém
vendo,
opinando, etc. Não estou sozinho. E cada membro da
comunidade
tem outros assuntos que discutem com maestria, desde física
quântica até receitas para preparar miojo.
O que o faz se manter um usuário ativo até hoje
em dia com o MSX, programando, sendo usuário ?
O mesmo motivo que descrevi acima.
O que você pensa a respeito da iniciativa da ASCII com o
movimento de revival do MSX ?
Não posso negar que é um movimento importante.
Acredito
que a volta da ASCII poderá alavancar o mercado de MSX,
desde
que ela se mostre fiel ao padrão. O OCM, com seus
prós e
contras, é um excelente começo, pelo fato de
alguma coisa
já ter mudado no projeto inicial por força,
talvez, da
comunidade internacional de MSX.
Como você vê as iniciativas nacionais, do Ademir
Carchano,
através da ACVS com o seu CIEL3++ e a do DalPoz com o seu
MSX em
FPGA ?
São iniciativas heróicas. Sinceramente, aguardo
com muito
mais ansiedade os MSX tupiniquins que o OCM. A diferença
é que o OCM pode contar com certo apoio financeiro, e os
projetos nacionais acabam sendo mantidos por uma única
pessoa.
Isso dificulta muito o desenvolvimento. Mas, mesmo assim, os projetos
caminham, e, com certeza, teremos um MSX nacional no futuro.
Em sua opinião particular, o que você gostaria de
ver em termos de hardware um novo MSX ?
Apesar de não agradar plenamente, eu gostaria de ver algum
desenvolvimento extra, como maior capacidade gráfica e de
processamento, mantendo a retrocompatibilidade
característica do
padrão. A inclusão de um V9990 seria
interessante, bem
como uma CPU mais rápida (tudo em FPGA). Cheguei a comentar
sobre o uso do Stratix, que poderia chegar a 200 Mhz a um
preço
não tão elevado, cerca de US$ 100.00 o chip.
Seria
viável.
O que você sente falta hoje em dia no MSX em termos de
software ?
Gostaria de ver alguns jogos de MSX1 redesenhados para MSX turbo R ou
MSX2, tipo Nemesis. Eu, particularmente, estou trabalhando na interface
gráfica EdiOS, que pretendo fazer que substitua o
COMMAND2.COM,
que era uma coisa que realmente faltava e muita gente gostaria de ver
implementada.
E não sendo um novo MSX, mas em termos de
periféricos, o que você sente falta para o MSX ?
Temos praticamente tudo. O que mais faz falta, sem dúvida
é um meio prático de conectar o MSX ao PC para
troca de
arquivos. Outra coisa interessante seria um doublescan
específico, para poder conectar o MSX a monitores VGA.
Com quais linguagens de programação
você trabalha em seu MSX ?
Basicamente C e ASM, por serem compiladas e de alto rendimento no que
tange ao executável gerado. Ocasionalmente, faço
algo em
BASIC também.
Qual a de sua preferência e porquê ?
Depende do objetivo a ser alcançado. O BASIC é
lento, mas
é muito fácil de manipular. Se vou fazer algo uma
ou
poucas vezes, prefiro BASIC porque acaba saindo mais rápido
na
somatória do tempo. Já a dupla C e ASM
é
inseparável, e gosto dessas linguagens porque elas geram um
código mais eficiente.
Você acha útil a Megaram como
periférico para
programação de novos softwares ? Acredita que os
novos
softwares poderiam fazer uso dela em suas características,
ou
prefere a Memory Mapper ?
Qualquer programa pode fazer uso tanto da Megaram quanto da Mapper.
Ambas são expansões de memória. O
ideal seria que
o software reconhecesse as duas, somando uma à outra.
Você está trabalhando atualmente em uma interface
gráfica para o MSX, intitulada de EdiOS. Como surgiu esta
idéia ?
Acredito que todo usuário, não só de
MSX, como
também de outras linhas de micros, gostariam de ver uma
interface gráfica rodando em suas máquinas. Todas
as
interfaces gráficas que testei eram extremamente limitadas.
Acabei desanimando com o MSXView, pois uma versão um pouco
mais
funcional estava em japonês, e parou por aí.
Então,
comecei a me perguntar se daria para fazer algo melhor. Assim, em 2001,
iniciei alguns testes em BASIC e me animei.
Quais estão sendo as dificuldades em desenvolvê-la
?
No início, foi o desconhecimento da linguagem C, pois eu
só tinha poucas noções dessa
linguagem. Mas achei
que seria mais fácil fazer em C com rotinas ASM do que
só
em ASM. Então, baixei uma apostila e comecei a trabalhar.
Atualmente, é o desenvolvimento e
otimização das
rotinas de acesso gráfico. E, é claro, falta de
tempo.
Até onde será possível chegar em
termos de
desenvolvimento com esta interface gráfica ? É
possível ter uma Interface similar a do Windows 3.11 ?
Difícil dizer. O Windows 3.11, ao que me consta, funcionava
até em 386. Mas, mesmo um 386 era mais rápido que
um TR.
Mas ainda dá para fazer muita coisa. Usar background, abrir
várias janelas simultaneamente e até permitir
certa
personalização da área de trabalho.
Tudo isso
já está a caminho, embora a passos lentos.
Será sempre um projeto open-source ou você
pretende
comercializá-la, futuramente, para os usuários do
MSX ?
Há um equívoco na pergunta. O EdiOS ainda
não
é open-source, mas sempre será freeware.
Futuramente,
será open source também. Só
não abro o
código agora porque o projeto ainda está no
início, e tem bastante coisa que quero implementar no
sistema. O
que talvez eu faça é montar uma caixa legal com
um manual
impresso de qualidade e um disquete ou CD também com
etiquetas
de qualidade para vender para quem quiser. Tudo a preço de
custo.
Além de programar, você gosta de jogar no seu MSX
? Quais seus jogos preferidos ?
Gosto muito de jogos de naves, tipo Nemesis ou Space Manbow.
Recentemente, estou pegando gosto por RPG, como o Illusion City.
Quais usos você dá ao seu equipamento MSX, mesmo
hoje em dia ?
Programação e diversão. O MSX
é muito mais
divertido que o PC, mesmo hoje em dia. De tempos em tempos, coloco um
de meus jogos preferidos e detono eles. Como já ganhei o
desafio
de detoná-los na raça, agora vai com imunidade
mesmo,
só para curtir o visual e as músicas. Gosto
também
de ver alguns demos, como Metal Limit e Unknown Reality.
O que você pensa a respeito do futuro do MSX ? Como
você vê o MSX futuramente ?
O MSX estará ativo por muito tempo ainda, visto
vários
usuários mais novos estarem aderindo ao padrão. E
também à ASCII estar dando sinais de retorno. Por
mais
que não gostemos, acabará ajudando o MSX.
Você acredita que o MSX possa, em um futuro breve voltar a
ser comercializado ?
Acredito que já esteja sendo comercializado. Vide OCM. Mas
não acredito que vá muito além disso,
e não
é uma perspecitva pessimista. O MSX hoje é hobby.
É virtualmente impossível que seja comercializado
em
grande escala como o foi nos áureos tempos. Mas
provavelmente
resistirá por muito tempo, mesmo em pequenas quantidades.
Comentando sobre seu livro, o MSX Top Secret II, que é
excelente
para todos que desejam se aprofundar no MSX e em sua arquitetura.
Voltando no tempo, ainda na primeira edição o MSX
Top
Secret I, como foi que surgiu a idéia de criá-lo ?
Foi mais ou menos em 1993/1994. Eu procurava livros que falassem sobre
MSX2, mas não havia nenhum. Então comecei a
cogitar a
idéia de eu mesmo escrever um livro sobre MSX2, para suprir
essa
lacuna.
Quanto tempo estima ter levado até a sua
conclusão ?
Foram mais ou menos 3 anos. Havia muita dificuldade em conseguir
informações na época, daí o
nome MSX Top
Secret. Mas a empreitada só foi possível depois
que o
Ricardo Suzuki enviou para mim uma cópia do MSX2 Technical
Handbook e do manual do MSX-Audio. No mais, comprei manuais
até
da LASP espanhola.
E o que o levou a criação do MSX Top Secret II ?
Foi a necessidade de atualização do livro, com
mais
informações. Haviam também alguns
erros no MTS1
que corrigi.
O livro MSX Top Secret II contém mais
informações
que a primeira edição. Como foi
reuní-las,
entendê-las, traduzí-las, enfim, como foi este
processo de
desenvolvimento do livro ?
Foi um processo bastante trabalhoso. Mas foi bem mais fácil
conseguir informações para o MTS2 que para o
MTS1. Foi
basicamente procurar na internet. O que deu trabalho mesmo foi a
formatação do livro. Calculo que gastei, em
média,
30 minutos para escrever e formatar cada página do livro.
Isso
porque eu não sabia como mexer no Page Maker e vivia
contornando
muita coisa.
Alguém o ajudou com textos em outras línguas ?
Sim, houve auxílio de algumas pessoas para isso. Hans Otten
traduziu alguns textos do holandês para o inglês e
mais
algumas traduções menores do japonês.
Há algum assunto que não está no livro
e que você gostaria de ter abordado ?
Sem dúvida. Uma coisa que me arrependo de não ter
colocado, já que tinha essa informação
à
mão, é a manipulação da
Mapper que o
MSXDOS2 tem. Foi um tremendo vacilo. No mais, gostaria de ter colocado
a BIOS da RS232C, acesso direto e BIOS das interfaces SCSI e IDE,
acesso à Kanji-ROM, etc.
Pretende escrever algum outro livro para o MSX ?
Provavelmente teremos um MTS2 em alguns anos. Calculo que ainda vou
trabalhar no EdiOS pelo menos dois anos. Depois disso, tenho
intenção de escrever o MTS3. Mas vai ser meio
complicado,
pois as informações que quero colocar
lá
estão em japonês. Assim, precisaria que
alguém se
habilitasse a traduzí-las.
Teve conhecimento da lista MSXBR-L através de amigos ou
diretamente pela Internet ?
Foi através de um usuário de MSX que contatei via
e-mail.
Infelizmente não lembro o nome dele. Mas, quando ainda
não tinha o PC, eu acessava a lista através da
BBS Mandic
com meu TR. Mas a Mandic desativou a BBS e eu fiquei um bom tempo no
limbo.
O que pensa a respeito atualmente das listas de discussão
relacionadas ao MSX ? Acha que elas poderiam melhorar em algum sentido
? Acha que já tem listas demais ?
Não conheço todas as listas. Assino a MSXBR-L e a
MSXALL.
Mas o excesso de listas pode atrapalhar a
integração da
comunidade MSXzeira, já que os usuários ficam
distribuídos em várias listas e podem
não se
comunicar entre si. As listas que assino estão
ótimas,
não vejo em que poderiam melhorar. Claro, poderiam arrebatar
legiões de fudebas...
Sobre os encontros de MSX, existem vários, mas os mais
conhecidos no Brasil são os de Jaú (cidade do
interior do
estado de São Paulo) e Rio de Janeiro. O que você
pensa
sobre estes encontros ?
São ótimas oportunidades para que os MSXzeiros
possam se
conhecer, trocar informações e apresentar
idéias
novas. Isso é muito importante para a
manutenção
da comunidade e conseqüentemente do padrão. O MSX
é
mantido tão ativo por causa da comunidade, que é
mantida
unida através das listas de discussão e dos
encontros.
Como é a experiência de estar nestes encontros ?
Muito gratificante. Os freqüentadores dos encontros
são
ótimas pessoas. Pode-se conversar sobre os mais variados
assuntos. Acredito que, desde que não se desvie do foco
central,
o MSX, conversar sobre outros assuntos acaba ajudando nossa comunidade.
Acha que falta algo nos encontros ou não ?
Talvez mais divulgação para os que não
conhecem o
MSX. Uma faixa na entrada, uma chamada na rádio local, um
anúncio em jornal, etc. De repente pode aparecer algum
fudeba do
limbo.
Você acha que poderia existir algum outro encontro de MSX em
alguma outra cidade ou grande metrópole ?
Claro que sim. Eu mesmo gostaria de realizar um encontro em minha
cidade. O problema é que sei que isso dá muito
trabalho,
não sei se conseguiria fazer um encontro legal.
Em uma palavra, o que foi o MSX para você no passado ?
O MSX para mim sempre foi hobby. Nunca pensei em ganhar dinheiro com
ele. Talvez por isso eu nunca tenha abandonado. Várias
pessoas
que conheci em minha cidade e que começaram com MSX pensando
em
lucro hoje trabalham com PC e provavelmente nem se lembram do MSX.
E no presente (em uma palavra) ?
Diversão. O melhor dos hobbys. (Opa, mais de uma palavra...)
E no futuro o que será (em uma palavra) ?
Diversão.
Edison, lhe agradeço pela muito pela entrevista.
Parabéns
por seu tempo dedicado ao nosso tão querido e o mais
mágico computador que é o MSX.
Parabéns por seus
livros, pelos seus projetos, por sua dedicação.
Há
muito tempo se diz que algo só existe, se existir
usuários que continuem fazendo programas, projetos, para o
que
se quer que se continue existindo. E é verdade. Foi este (e
tem
sido) este o meu sentimento sempre que consigo algo novo para meu MSX,
como foi o caso de seu livro, como foi caso do Knightmare Gold, do
Knightmare CD, quando pude ver o Snatcher traduzido e vários
outros projetos, de brasileiros ou não. Enfim, este
é meu
agradecimento pelo seu trabalho. Parabéns e continue assim.
Eu é que agradeço pela oportunidade de falar um
pouco do
que penso sobre o MSX. Concordo com você, o MSX só
resiste
ao tempo pela dedicação de seus
usuários, que
batalham e acabam trazendo muitas novidades. Parabéns a
todos
nós, da comunidade MSXzeira.
Os livros do MSX TOP SECRET, bem como o projeto EdiOS e outros do
Edison podem ser encontrados em: http://www.msxtop.msxall.com